Será que temos estatística num vídeo TikTok sobre homens contra ursos?

Inicio este blogue com um comentário ao artigo de opinião intitulado “O urso no meio da sala” da colunista Luísa Semedo, artigo esse publicado no sítio do PÚBLICO no passado dia 2 de Maio. A autora é claramente conhecedora da expressão inglesa “The elephant in the room”, que significa um problema evidente mas que é evitado de ser falado ou discutido abertamente. 

Tendo vivido em Terras de Sua Majestade por quase uma década, fiquei curioso por saber o contexto do artigo e perceber a razão da autora não ter escolhido o título “O elefante no meio da sala”, sendo este uma tradução mais perto do original. Debrucei-me então sobre o artigo. 

Senti imediatamente um vórtice a sugar-me para um mundo fantástico que desconhecia. Não o País das Maravilhas da Alice onde tomar um comprimido vermelho ou azul permite aumentar ou diminuir dimensões corporais. Não a Terra do Nunca onde ser criança para sempre é uma possibilidade (mas não desejável). Não o mundo escondido das Crónicas de Nárnia por onde se entra pela porta de um armário (tentei fazer isso uma vez no meu quarto mas sem sucesso). Mas sim um mundo perigoso ao estilo de Mordor no qual homens violentos habitam florestas onde os capuchinhos vermelhos desse mundo não se atrevem a atravessar. Mundo esse em que ursos são mais amistosos do que homens (ou pelo menos, a sua agressividade é assumida ser mais desculpável pela sua natureza animalesca e pela sua inconsciência desse facto de vida). Mundo esse em que os homens, para além de violentos, não querem assumir a responsabilidade pelo passado colonial português. Uma atitude condenável, lastimável e vergonhosa, segunda a autora.  

O dia até estava a correr-me bem e agora saiu-me este mundo negro na pausa para café e para a leitura das nóticias da atualidade. Confesso que não sou muito dado a polémicas e por isso fiquei um pouco incomodado pela forma zangada com que a autora se expressou no artigo. Talvez essa forma tenha desculpa e seja o resultado de algum acontecimento dramático na sua vida passada. Não sei. E exatamente por não saber e por não ser um sociólogo, vou abster-me de comentar a eventual luta (social) entre sexos que parece animar tanto a autora. Contudo, o que me verdadeiramente levou a escrever este texto foi o arastamento da minha querida Estatística para o mundo que a autora pretendeu convencer de que existe na realidade. Afinal de contas, Estatística vêm da palavra "Estado" e, como tal, permite-nos ter uma melhor percepção do estado das coisas. 

O Vídeo da Polémica

Vamos então ao problema. Em traços gerais, o artigo de opinião começou com a menção a um vídeo do TikTok com mais de 14 milhões de visualizações e mais uns milhares de comentários. Este vídeo de cerca de 30 segundos serviu de premissa para a autora elaborar a tese de que o mundo está cheio de machistas violentos e opressores de mulheres para depois discredibilizar qualquer opinião de homens sobre o tema das reparações históricas. A curiosidade levou-me a seguir a ligação para o vídeo.  

Um entrevistador que não se vê, aparentemente de voz masculina, e de microfone na mão, questiona na rua 8 mulheres separadamente se, estando encurraladas numa floresta, preferiam ficar na presença de um homem ou de um urso. Sete mulheres escolhem o urso e apenas uma escolhe o homem. O vídeo parece ter sido filmado em Inglaterra. Reconheço o traço arquitetónico das casas e o sotaque das inquiridas é inconfundivelmente britânico. O plano de fundo faz-me lembrar Camden Town em Londres, onde vivi alegremente por cerca de 4 anos.

A polémica estalou nas redes sociais quando uma das mulheres inquiridas justificou a sua escolha por “haver muitos homens por aí que metem medo” (minha tradução livre); outras mulheres justificaram a sua resposta com uma variante dessa ideia. Notando que duas das inquiridas que responderam o “urso” acabaram a rir após a sua resposta e o facto de o vídeo ter sido publicado numa rede social, e não numa revista científica na área da Sociologia, deveria ser uma evidência suficientemente óbvia de que o vídeo era uma brincadeira, quiçá não inocente. 

Contudo, a menção desse vídeo no artigo teve o intuito claro de tentar atribuir uma credibilidade estatística à tese de que existe um problema em larga escala: 

uma grande maioria das mulheres tem medo dos homens. 

Essa credibilidade foi transmitida através da alta percentagem associada à escolha do urso como resposta (87.5%), do número de visualizações na ordem dos milhões e na afirmação “Muitas mulheres compreenderam e justificaram porque também fariam essa escolha” que, pressuponho, adveio da leitura dos (milhares de) comentários ao vídeo. A questão fulcral consiste em saber se existe alguma verdade estatística em tudo isto.  

Onde Está a Verdade Estatística? 

Vamos por partes. Qual é o valor estatístico de uma amostra de 8 mulheres se a tomarmos como vinda de um estudo credível? Esta questão encerra em si outras questões importantes que estão a montante da mesma. Qual foi a população-alvo que se queria estudar? Como foram selecionadas as inquiridas da amostra para se ter uma representação não-enviesada da população? Qual a reação esperada a uma questão na qual poderá haver o ímpeto de responder o politicamente incorreto e assim demonstrar rebeldia como é o caso da malta de Camden Town? Será que a resposta à pergunta poderá ter sido influenciada por um efeito do querido urso Paddington no subconsciente das inquiridas? Já agora, para quem não sabe, na Polónia onde atualmente vivo, as mulheres tratam carinhosamente os seus maridos por "ursinhos". Finalmente, qual é a incerteza estatística associada aos 87.5% quando se tem, neste caso, uma amostra de apenas 8 mulheres da população? Só respondendo cabalmente a estas perguntas, somos capazes de discutir a possível generalização dos resultados da nossa amostra para a população-alvo. 

Tenho a certeza que os autores do vídeo não tiveram muito preocupados com todas estas questões. Para além disso, cheira-me que o vídeo foi propositadamente criado a partir de uma amostra enviesada para gerar polémica ou discussão. Ou seja, muitas mulheres que responderam o "homem" não figuram no vídeo. Se a amostra é então intrinsicamente enviesada, não há portanto qualquer inferência estatística passível de ser realizada, tal como explicado neste artigo da revista britânica Significance. Contudo, a autora quis fazê-lo. E ao escrever isto, não evito recordar o célebre vídeo dos Gato Fedorento no qual o Ricardo Araújo Pereira dizia "é proibido mas pode-se fazer" ao caricaturar comicamente o nosso Presidente Marcelo Rebelo de Sousa aquando referendo sobre a interrupção voluntária da gravidez. 

O número de visualizações na ordem dos milhões foi um aspeto importante na credibilidade de que o “urso no meio da sala” é tanto atual como importante para muitas mulheres. Contudo, é mais do que sabido que os algoritmos usados pelas redes sociais na seleção e apresentação de conteúdos estão construídos com o objetivo de nos darem o que queremos ver ou de nos “alimentarem” com temas polémicos de forma a aumentar o tempo despendido nesses mesmas redes. E assim sendo, o número de visualizações reflete apenas a seleção de uma faixa da população já por si enviesada e motivada para o tópico em questão, e não a população em geral.  

Por fim, a afirmação “Muitas mulheres compreenderam e justificaram porque também fariam essa escolha” está escrita de uma forma qualitativa, quando poderia ter sido escrita de uma forma quantitativa se tivesse havido o esforço de fazer a contabilização a partir da caixa dos comentários. De facto, a expressão “muitas mulheres” está associada aos conceitos estatísticos de frequência absoluta ou frequência relativa (por exemplo, 100 mulheres e 53% das mulheres, respetivamente). 

A expressão “muitas mulheres” não passaria tipicamente o crivo rigoroso de um artigo de opinião ou de perspetiva submetida para publicação numa revista científica. Teria de ser substituída por uma expressão equivalente de índole quantitativa, idealmente com a quantificação da incerteza associada e com um conjunto de referências bibiográficas a apoiar a mesma. Se um cientista não consegue fazer isso, é sintoma de que o mesmo está a interpretar abusivamente a realidade. Por conseguinte, esse tipo de expressões são invariavelmente pedidas para serem retiradas dos artigos por avaliadores ou editores. 

Note-se que os cientistas normalmente não encaram esses pedidos como um ato de censura, mas sim como uma oportunidade de aprenderem a detetar e identificar os seus vieses cognitivos e as suas interpretações eventualmente abusivas. A Ciência é, acima de tudo, um processo que se pretende que seja o mais objectivo possível mediante a evidência disponível até à data.   

Estar Atento a Verdades Demasiado Simples

Em suma, este pequeno texto que trago aos meus queridos leitores, não estando na ribalta das discussões mediáticas do momento, mostra bem, numa escala bem maior, os perigos de sermos manipulados por políticos, comentadores, ou ideólogos habilidosos que nos querem transmitir sub-repticiamente as suas meias verdades usando dados estatísticos incompletos, ou mesmo impossíveis de interpretar. 

Isto não quer dizer que o problema levantado pela autora (o fenómeno do machismo da sociedade) não exista. Existe e tem vindo a ser combatido, passo a passo. Não é por acaso que existem leis contra violência doméstica e crimes sexuais, que foram votadas tanto por homens e mulheres que consideram essa violência inaceitável em sociedades ditas civilizadas. Também não se posso negar a existência de grupos de jovens Incels (celibatários involuntários) na Dark Web que apelam ao ódio às mulheres. Esse fenómeno social deve ser denunciado e combatido tal como comprendido e curado. Por outro lado, a cegueira de ideologias simplistas baseadas no binómio opressor/oprimido esteve na origem das catástrofes humanitárias do século passado, tal como tão bem explicado pelo psicológo clínico canadiano Jordan B. Peterson na regra 11 (Não incomode as crianças quando estão andando de skate) do seu livro "12 Regras Para a Vida: Um Antídoto Para o Caos".   

Assim, a discussão de todos estes temas, exactamente pela sua gravidade e sensibilidade social, deve estar assente na verdade como um todo e não em meias-verdades. Uma meia-verdade, por definição, não é uma verdade em si mesma. E se vivermos sob a égide de uma meia-verdade, estamos a um passo de resvalar para a mentira e falsidade. Todos perdemos. 

Problemas e temas complexos só são resolvidos com soluções complexas onde vários saberes se conjugam. Tento sempre transmitir esta ideia aos meus alunos de doutoramento para evitar ansiedades ao longo dos seus projectos.     

Não esqueço nunca as palavras sábias do nosso grande poeta popular António Aleixo quando escrevia: 

Para a mentira ser segura
e atingir profundidade 
tem de trazer à mistura 
qualquer coisa de verdade”.

O antídoto contra estas ou outras meia-verdades passa por ter os olhos bem abertos como o deus egípcio Hórus. Devemos então ter uma melhor e maior mente estatística. Para uma maior consciência social e cívica. Todos ganhamos. 

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