Ikigai: um conceito japonês que dá que pensar

O texto de hoje vêm na sequência de um webinário que apresentei na comunidade z-Stat4Life há poucos dias atrás (16/10/2024). Nesse webinário explorei a questão fundamental que inquieta todos os profissionais que alguma vez pensaram na sua carreira: que estratégias devemos implementar para ter uma carreira minimamente gratificante? Para responder a essa questão, optei por trazer à discussão um conceito japonês que me pareceu interessante e quiçá desconhecido para muitos do mundo dito ocidental. Esse conceito está traduzido na palavra Ikigai.     

A primeira vez que tive contacto com a palavra Ikigai foi há cerca de uma década quando ainda vivia em Londres. Esse contacto veio da visualização no Youtube da palestra intitulada "como viver até aos 100 anos?" por Dan Buettner.  Nessa palestra sob a chancela das conferências TED, Dan falou sobre as chamadas "Blue Zones" e dos seus habitantes que viviam frequentemente acima dos 100 anos de idade e com grande vigor físico. Inicialmente Dan e a sua equipa pertencente à National Geographic identificaram 5 dessas zonas por esse mundo fora: (i) Ikaria na Grécia; (ii) Sardenha na Itália; (iii) Loma Linda (Califórnia) nos Estados Unidos da América; (iv) Península de Nicoya na Costa Rica; e (v) Okinawa no Japão. A cidade-estado Singapura foi recentemente adicionada à lista, fruto de medidas de carácter político e social para torná-la efetivamente numa nova "Blue Zone".  

Dan e a sua equipa identificaram vários factores contribuintes para a longevidade excepcional dessas regiões. Esses factores foram categorizados sob 4 granes temas: 

1. Atividade física - Os habitantes das Blue Zones moviam-se naturalmente nas suas atividades diárias.  

2. Vida social - Tinham um grande sentido de pertença às suas comunidades e famílias, privilegiando o tempo para estar com quem se gosta.   

3. Dieta - A sua dieta era composta essencialmente à base de vegetais, estando subjacente o cumprimento da regra dos 80% nas refeições (parar de comer quando uma pessoa se sentir 80% cheia)

4. Forma de Pensar e de Estar - Tinham tempo para relaxar e uma grande vontade de viver, vontade essa traduzida para palavras de uso corrente.

Foi exatamente na última categoria que Dan falou da palavra Ikigai que os habitantes de Okinawa usavam frequentemente para referir à sua grande vontade de viver. 

Meses mais tarde, quis o destino que num certo domingo eu fosse passear pelo centro de Londres e entrasse na majestosa livraria "Waterstones" em Picaddily. Ao percorrer os vários andares da livraria, deparei-me com um pequeno livro de Ken Mogi colocado numa mesa de exposição. Esse livro tinha o título "The little book of Ikigai: the essential japanese way to finding your purpose in life". Pelo título, parecia um livro de auto-ajuda mas, quando li vários excertos de texto ao acaso, mudei de opinião. Era um livro sobre o Japão, a sua cultura e como a palavra Ikigai era encarada no dia-no-dia de um japonês.  Fiquei curioso sobre o assunto e comprei o livro. Li o livro imediatamente e desde esse dia já o reli várias vezes. 

Logo nas primeiras páginas do livro, Ken Mogi dá todo o ouro ao leitor, definindo o que é Ikigai e os seus 5 pilares. O resto do livro traz-nos histórias e personalidades japonesas do passado e do presente nas quais os pilares do Ikigai se cruzam entre si. É nesse cruzamento desses pilares que reside a essência de uma vida gratificante, segundo os padrões japoneses e do autor do livro, claro. 

A tradução literal de Ikigai é a razão pela qual nos levantamos em cada manhã. Pensei numa tradução alternativa ao estilo de um livro de auto-ajuda: a razão de viver. Mas logo admiti gostar mais da tradução literal. É mais meiga para o nosso intelecto e não tão existencial como a minha tradução que, sendo mais dramática e emotiva, parece-me admitir desnecessariamente a existência de uma forte dualidade de termos ou não Ikigai. E se não o temos, parece cair sob nós a sentença de viver uma vida sem qualquer sentido. De facto, a alusão a cada manhã na tradução literal traz consigo uma forte dose de esperança e optimismo para todos nós em cada dia que passa. Passo a explicar. 

Se uma manhã é diferente da anterior, podemos admitir que a razão pela qual nos levantamos em cada manhã varia de um dia para outro. Um dia pode ser tomar um pequeno-almoço em família com um pão acabado de cozer pela padaria do bairro. Noutro dia pode ser um cafezinho com um amigo que há muito não se via. Num outro dia pode ser uma corrida pela marginal, sentir o ar fresco vindo do oceano ou mesmo sentir o sol a aquecer a nossa cara. Cada um escolhe a razão que bem entender. 

Se calhar devíamos até fazer a experiência de comprar uma pequena agenda e escrever essa razão na entrada de cada dia do calendário. Ao fim de um ano, releríamos a agenda de forma a descobrir o nosso Ikigai através do que escrevemos. Os leitores com mais apetência para a Estatística até poderiam fazer uma análise estatística dessas razões, utilizando gráficos e estatísticas sumárias. Não falta imaginação.  

Como escrevi acima, Ken Mogi discute o conceito de Ikigai usando 5 pilares que enumero em seguida: 

  1. Começa devagar;
  2. Liberta-te do teu ego;
  3. Vive em harmonia e de forma sustentável;
  4. Tem prazer nas pequenas coisas;
  5. Vive aqui e agora.   

Gostei imenso desses pilares. Claros, simples, e exequíveis. E quando dei por mim a reflectir sobre cada um deles ao longo do tempo, descobri que esse pilares poderiam explicar muito o meu gosto pela Ciência e pela Estatística. Como tal, vou partilhar a reflexão sobre cada um dos pilares nos próximos 5 textos do blogue. (E assim evitei tornar este texto excessivamente longo!) Bale?!

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