Primeiro pilar do Ikigai: começar devagar

Tal como prometido, vou iniciar hoje a minha exploração dos 5 pilares do Ikigai neste querido blogue que ambiciona acompanhar-vos nestes dias em que as horas solares minguam e nos fazem recolher para dentro do casulo. Não há nada como sentar numa cadeira confortável e deixar a imaginação voar na escrita de algo que se tem um interesse especial. E ao deixar a minha imaginação voar,  imagino o leitor deste blogue também a sentar-se numa cadeira confortável em frente a uma lareira e pegarem neste blogue como um livro nas mãos. A minha imaginação vai mais além e vejo eu e o leitor como companheiros virtuais neste Outono de folhas mescladas de verde, amarelo e vermelho, prestes a caírem no passeio ao sabor do vento, ora soprando violentamente como um presságio do inverno que aí vêm, ora soprando como uma brisa breve quase de verão.     

Recordando o último texto, o Ikigai a la Ken Mogi assenta em 5 pilares ou fundamentos: 

  1. "Começar devagar"; 
  2. "Liberta-te do teu ego"; 
  3. "Harmonia e sustentabilidade";
  4. "A alegria das pequenas coisas";
  5. "Viver no aqui e agora".

Sigo a ordem dos pilares tal como está escrita no livro de Ken Mogi. Essa ordem parece-me algo aleatória com excepção de "começar devagar" que me parece ser o suporte de todos os outros. Conscientemente, coloco o desafio a mim mesmo de seguir literalmente aquela ordem dos pilares neste texto. Será que sou capaz de encontrar uma lógica natural para essa ordem dos pilares do Ikigai?  

Começar devagar é o equivalente do "Era uma vez" das histórias das nossas infâncias. Tudo começa devagar inclusive a nossa vida. Nascemos e crescemos devagar devagarinho com um sorriso aqui e acolá quando vemos os nossos pais:

(olhá mãe, olhó pai, olhó meu mundo tão grande que é!)

Um dia, quase por magia, as nossas pernas rechonchudas ganham uma força incrível, lançando-nos à aventura de dar os primeiros passos. Um primeiro passo tímido, um tombo. Um segundo passo menos tímido, outro tombo. Tantos passos, sempre mais decididos, outros tantos tombos. Repetimos o processo sempre com a mesma alegria de tentar superar o desafio. Inconscientemente dizemos para nós próprios: "hoje vai ser o dia em que vou conseguir dar 10 passos sem cair!"  

Nessa altura o nosso ego é também uma espécie de bébé quase mudo, sem força nem engenho para lançar as suas palavras de dúvida e de desmotivação tão comuns na idade adulta. O nosso ego, nas poucas vezes que nos fala, usa uma língua tão rudimentar como estranha.

(Má, má, blá blá gá, gá, gu, gu, tá, tá). 

Como não entendemos nada do que ele diz, é fácil de desenvencilharmos dele e de até esquecermos de que ele existe. Há coisas mais importantes na nossa agenda da infância. 

Quando começamos a ganhar destreza e estabilidade na vertical, sentimos uns novos conquistadores do mundo. Afinal de contas conseguimos sustentar o nosso corpo de costas direitas. Resta-nos encarar a vida desse modo: costas direitas, nariz ligeiramente empinado e mãos prontas a agarrar tudo o que nos aparece à frente. 

O mundo deixa de ser tão alto. Começamos a alcançar os arranhas-céus em forma de mesas. Exploramos os seus telhados cheios de copos, pratos e chávenas que tilintam quando tocamos com uma colher. Adoramos esse som.

Tim tim tim!    

Seguimos a nossa exploração para outros lugares. Exploramos devagar e com cuidado, seguindo um caminho harmonioso no qual evitamos pisar toda aquela bonecada que os nossos pais resolveram espalhar pela sala. 

(juro, foram eles que espalharam!)

Exploramos o mundo tentando harmonizar o nosso corpo com os objectos em nosso redor, que parecem ter uma mania estranha de se colocarem sistematicamente à nossa frente. Andamos à procura desse caminho harmonioso, quando de repente notamos aquele objecto que está em cima da mesa do café. É um objecto plano, raso, com imagens e rabiscos. 

Vamos até lá com o coração aos saltos, tropeçando de súbito num carrinho de bombeiros que resolveu colocar-se no nosso caminho. 

Bolas quem colocou esse carrinho no caminho!?!

Caímos para frente, mas a nossa vontade de alcançar o objecto não vacila. Caminhamos agora mais devagar e com mais cuidado, pé ante pé, continuando com uma alegria esfuziante dentro de nós. 

O que será aquilo?!?

Chegamos lá, pegamos no objecto que se abre à nossa frente como um harmónio em camadas bem fininhas. 

Os ouvidos da mãe escutam-nos ao longe e dão sinal para ela vir ver o que se passa connosco: 

Já que vi que descobriste a revista Nature que o teu pai recebeu ontem pelo correio. 

Não sabemos nem o que é uma revista nem tão pouco o que é a Nature, mas percebemos que esse objecto  está recheado de imagens estranhas que, muitos e muitos anos mais tarde, aprendemos ser uma tabela de contingência, um histograma, um gráfico de caixas e bigodes, ou um diagrama de dispersão. 

Apontamos com espanto para algo na revista que parece a nossa cobrinha de peluche que alguém nos trouxe de presente desse mundo lá fora cheio de coisas e mais coisas. Apontamos como se tivéssemos a intuição de que um dia, após uma aprendizagem lenta e encadeada entre si, ficaríamos a saber que essa tal cobrinha numa página qualquer da revista era o sinal de integral que nos permitiria construir modelos de misturas infinitas ou calcular a probabilidade de eventos de variáveis aleatórias quantitativas contínuas. 

Nessa altura registamos apenas o evento. Com a alegria imensa de que cada momento é uma nova descoberta. Mesmo que não percebamos o significado dessa descoberta. Achamos que a descoberta é simplesmente engraçada. E do engraçado estamos a um passo da curiosidade que nos levar a questionar a forma como funciona o mundo. 

Na infância somos verdadeiros cientistas, testando hipóteses com experimentação imediata.

De repente a barriga dá horas, faz barulhos estranhos como se tivéssemos um pequeno monstro a ressonar dentro de nós. Não é um monstro, mas sim uma fome daquelas que de repente parece ter escalada das páginas da revista para as nossas barrigas! Tudo é simples, tudo é naquele momento, todo o mundo é aquele lugar. E apenas aquele lugar.  

Amanhã está longe demais e há ainda tanta coisa para explorar e testar hoje. Mas antes vamos comer a papinha que nos vai fazer crescer. Depois vamos descansar que isto de fazer as coisas devagar cansa. 

Começar devagar, então, é tudo (ou mais) o que imaginei acima. É acima de tudo um início de uma história de vida. Ou de uma aventura que nos leva a sítios longe da ansiedade e do esgotamento que aparece quando queremos tudo para ontem. 

Cada dia começa devagar. Já repararam como o sol não é apressado, levantando-se devagar? 

A idea de "começar devagar" não é exclusiva do Ikigai, estando tão presente em muitas das nossas expressões populares: "devagar se vai ao longe", "Roma e Pavia não se fizeram num dia", "dar um passo maior do que a perna", "ir demasiado cedo ao pote", "dar tempo ao tempo".  Eu gosto da seguinte expressão: 

Se a vida fosse uma prova dos jogos olímpicos, seria uma maratona, e não um sprint de 100 metros. 

Como tal, começar devagar é a forma de garantirmos que começamos qualquer aventura (pessoal ou profissional) com passos em terra firme. Começar devagar ajuda-nos a aferir a tempo e horas se estamos no caminho certo. E se não estamos, dá-nos tempo para mudar de direcção. 

Nesta altura da minha vida, posso confessar abertamente que, de uma forma inconsciente, segui este pilar nos meus primeiros anos da faculdade. Comecei devagar - leia-se chumbos em várias cadeiras - porque quis testar, ao mesmo tempo, várias opções de vida, nomeadamente, uma carreira como treinador de ténis. Ao fim do terceiro ano da faculdade, percebi que, apesar de gostar imenso de ténis, música e de outras coisas menos sérias, a Estatística era uma área profissional que me apaixonava e que, sem saber, permitia que eu aplicasse os outros pilares do Ikagai. Quando descobri essa paixão, o começo devagar do curso de Matemática Aplicada e Computação deu origem a uma correria mas sem me cansar. E agora, passados muitos anos desses tempos, estou eu aqui a escrever este blogue sobre as minhas maluquices em Estatística.  

Comecem devagar e tenham a paciência de esperar por aquela faísca que vos faça alterar a vossa velocidade da vida (profissional ou pessoal) sem esforço. Depois apliquem os restantes pilares do Ikigai que vou discutir nos próximos textos. 

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