E se fizéssemos menos faltas no futebol?
Será que vamos repetir o feito de 2016? Não sei prever isso, mas posso constatar que já não temos o nosso herói Éder, o homem das bifanas, para nos salvar contra os irredutíveis gauleses que, até ao momento, parecem mais preocupados com Macron, Le Pen e outros cavaleiros do Apocalipse Político francês do que jogar um futebol romântico ou impressonista ao estilo de Manet e Monet que nos apaixone e arrebate. Vamos ver como tudo termina. Talvez a Nossa Senhora de Fátima nos dê uma ajudinha, como me parece que ajudou contra a Turquia com aquele autogolo que já não via há muito tempo e com as mãos divinas do Diogo Costa contra a Eslovénia. Se tudo correr bem, lá teremos de festejar forte e feio com bifanas, coratos, e umas jolinhas entre amigos.
Seis dias depois do início do campeonato, o governo português anunciou um pacote anti-corrupção com 31 propostas através da ministra da Justiça, Rita Júdice. Li a notícia de relance, mas notei o facto do número de propostas ser um número primo (um número apenas divisível por 1 ou por ele próprio). Dei por mim a pensar que o governo pudesse estar a escolher o número de medidas para o país a partir da sucessão dos números primos (1, 2, 3, 5, 7, 11, 13 e por aí fora). Seria uma boa forma de aprender Política e Matemática ao mesmo tempo.
Imaginei então o Primeiro Ministro Luis Montenegro a entrar de rompante na sala de reuniões do conselho de ministros e proferir o seguinte:
Ora, bom dia, Senhores Ministros e Senhoras Ministras! Como as escolas não estão a fazer bem o seu trabalho, precisamos de ensinar mais e melhor Política e Matemática a todos portugueses. Lembro que, no fim da nossa legislatura, temos como meta o conhecimento por parte dos nossos cidadão do que é um número primo e a sua sucessão. Proponho que atinjamos essa meta através do número das propostas a apresentar no parlamento. Precisamos então uma medida para a Cultura, duas para a Defesa, três para o Desporto, 5 para a Justiça, 7 para a Economia, 11 medidas para a Educação até chegarmos a 31 medidas anti-corrupção para calar os Boa-Noite Minha Senhora. Ao trabalho!
Um Sonho Acordado Sobre Futebol e Corrupção
Alguns dias depois, andava absorvido nos meus pensamentos sobre a minha investigação, quando surgiu uma imagem na minha mente, como se fosse um sonho acordado vindo das profundidas do meu subconsciente. Era uma imagem de uma espécie de hotel ou casino com dois grandes néones a piscaram constantemente sobre a entrada. Esses néones diziam futebol a vermelho e corrupção a violeta. Pensei imediatamente no Caesars Palace em Las Vegas. Lindo espectáculo! Mas porque razão essa imagem tinha surgido na minha mente?
Para responder a essa pergunta, comecei a escrever esse texto. Afinal de contas, falar e escrever são duas formas complementares de pensar sobre um assunto.
Bem, a corrupção no futebol não é um assunto totalmente novo nos dias de hoje e não tenho um interesse particular no mesmo. Por isso descartei essa razão. Também pensei que poderia estar preocupado com uma eventual corrupção no Campeonato Europeu de Futebol. Mas essa preocupação não me parecia justificável. Que preocupação poderia eu ter quando temos o VAR e meio mundo de olhos postos nos ecrãs a tentar descortinar a presença de algum dedo malévolo nas arbitragens?
Não resisto a fazer aqui o comentário de que o uso do VAR tornou o futebol mais aborrecido e sensaborão, pois ficamos menos motivados para engendrar teorias conspirativas e aliviar assim a culpa da derrota das nossas equipas. Para além disso, do que vale a pena celebrar um golo quando nos 2 minutos seguintes temos de sofrer a desilusão do golo ser invalidado por meio nariz do Francisco Conceição? Psicologicamente, essa oscilação abrupta entre a alegria extasiante e a profunda desilução não me parece nada saudável e leva mais cedo ou mais tarde a um efeito anestesiante das emoções que nos levam a gostar de Futebol.
Foi então que me lembrei de um livro que tinha lido recentemente: "Beyond Order (12 More Rules for Life)" do psicólogo clínico Jordan B. Peterson. Quando cheguei a casa, fui à estante do quarto, peguei no livro e comecei a folheá-lo, tentando recordar o seu conteúdo.
Descobri a seguinte passagem que tinha sublinhado quando li a Regra 1 - "Do not Carelessly Denigrate Social Institutions Or Creative Achievement" (página 16):
The best player is therefore not the winner of any given game but, among many other things, he or she who is invited by the largest number of others to play the most extensive series. It is for this reason, which you may not understand explicitly at the time, that you tell your children: 'It is not whether you win or lose. It is how you play the game'.
Jogadores de Futebol Como Agentes de Corrupção do Próprio Jogo
Ora, é neste ponto do texto que preciso de aprofundar a minha reflexão.
Essa violação das leis do jogo pode ser feita de forma inconsciente (por exemplo, um jogador ser apanhado na posição de fora-de-jogo) ou por mero erro humano (por exemplo, um jogador acertar na canela do adversário na tentativa genuína de recuperar a posse de bola). Outras vezes faz parte da estratégia de jogo (por exemplo, agarrar a camisola do adversário ou derrubar propositadamente um adversário em corrida que se escapa para a baliza). Outras vezes manifesta-se por pura malícia (por exemplo, empurrar ou pontapear o adversário quando o árbitro não está a ver) ou por pura desonestidade intelectual (por exemplo, simular um derrubo onde este não existiu). Outras vezes resulta da retaliação e solidariedade para com os colegas de equipa (por exemplo, derrubar um adversário que derrubou anteriomente um dos nossos).
Todos nós que acompanhamos o futebol de perto sabemos infinitos exemplos das violações das leis de jogo acima descritas. Para nós portugueses, continua a pairar a dúvida se o intuito de Payet foi ou não de lesionar Cristiano Ronaldo ao oitavo minuto da final do Campeonato Europeu de 2016. Só a consciência do Payet o pode dizer. Mas se nos lembrarmos o que aconteceu no final do filme Karate Kid de 1984, podemos fazer o nosso julgamento dessa acção intempestiva do jogador francês. Afinal de contas, estava em jogo um título europeu entre portugueses e franceses. E toda a gente sabia que Ronaldo estava meio lesionado.
Resolvi arregaçar as mangas e executar um pequeno estudo científico que clarificasse se estava a interpretar as coisas corretamente.
Quem Quer Um Pequeno Estudo de Investigação?
Um estudo de investigação começa com uma tese de trabalho ou um problema cuja resposta não se conhece. A minha premissa de trabalho foi então a seguinte:
Tese: se o futebol reflecte comportamentos da vida real e se as faltas são uma forma de corrupção do jogo em si mesmo, posso admitir por hipótese que o número de faltas por jogo possa estar relacionado com a percepção da corrupção na sociedade.
Fui então investigar se podia testar estatisticamente a tese acima. Quando escrevi o advérbio "estatisticamente", deve-se entender por recolher dados sobre o problema, para depois analisá-los por algum método estatístico e, por fim, interpretá-los e discuti-los à luz da hipótese que se quer testar.
Elaborei então um pequeno protocolo de pesquisa. Primeiro, defini a minha população-alvo: países da União Europeia. Depois defini os dados a recolher: (i) o número médio de faltas por jogo das primeiras ligas desses países e (ii) a percentagem de pessoas desses países com a percepção de corrupção nos seus países. Os dados a recolher teriam de se referir, vamos lá, aos últimos 10 anos. Os dados seriam obtidos nesse mundo virtual chamado Internet através do Senhor Google, esse Deus omnipresente nas nossas vidas e omnisciente de (quase) toda a actividade humana. A análise estatística seria baseada em gráficos de dispersão (scatterplots) e medidas de correlação entre duas variáveis quantitativas (vide o Dicionário Estatístico no fim do texto).
Todos os estudos têm as suas dificuldades, principalmente, quando não se têm meios de recolher dados primários. Este estudo não foi excepção. Afinal de contas, este é um humilde blogue sem meios para se auto-financiar em meras curiosidades do autor. Contudo, fiz o melhor que pude para encontrar os dados mais consistentes com o meu protocolo de pesquisa.
Encontrei dados sobre o número médio de falta por jogo referentes a 30 primeiras ligas europeias no relatório "Pan European analysis on the fluidity of football matches" de autoria de Raffaele Poli, Loïc Ravenel e Roger Besson. O relatório pareceu-me ter alguma credibilidade e qualidade, pois os autores do relatório formam um grupo de investigação dedicado ao estudo do Futebol no International Centre For Sports Studies, um instituto sediado em Neuchâtel na Suiça.
Esses dados referiam-se ao período de 01/07/2019 a 03/03/2021 (Figura 5 do relatório). Infelizmente, as primeiras ligas de 7 países da União Europeia não estavam representados nos dados: Chipre, Estónia, Irlanda, Letónia, Lituânia, Luxemburgo e Malta. Assim, fiquei com dados de 22 primeiras ligas da União Europeia, incluíndo as Premier League (Inglaterrra) e Scottish Premiership (Escócia), uma vez que o Reino Unido ainda não tinha saído da União Europeia no ano de 2019.
Sabia que a União Europeia fazia frequentemente sondagens de opinião pública em vários assuntos. Por isso, fui ao sítio do Eurobarometer e pesquisei por alguma sondagem sobre o tema da corrupção realizada entre 2019 e 2020. Descobri então o relatório de uma sondagem (referência 2247/SP502) realizada em Dezembro de 2019. Infelizmente, a sondagem não discriminava dados da Inglaterra e da Escócia no caso do Reino Unido. Assim, a análise que se segue assenta em dados da corrupção do Reino Unido para a Inglaterra e Escócia conjuntamente. O número total de indivíduos inquiridos por país variou entre 1002 (Chéquia) e 1528 (Alemanha). O inquérito em Portugal foi realizado pela empresa Marktest com um número total de 1040 inquiridos.
Para não maçar o leitor com muitos dados, vou concentrar-me apenas na percentagem de indíviduos da sondagem que concordam com a percepção de que foram alvos de corrupção. Contudo, descobri essencialmente as mesmas correlações para outras percepções sobre a corrupção, tais como a concordância de que o favoritismo afecta competitividade nos negócios ou a concordância de que há uma cultura de corrupção nos negócios no respectivo país. Os gráficos da análise destas variáveis alternativas podem ser encontrados aqui.
Figura: Gráfico de dispersão entre o número médio de faltas por jogo em 22 ligas de países da União Europeia (ENG - Inglaterra, SCO - Escócia)) e a percentagem de indivíduos com a percepção de terem sido afectados por corrupção. Cada bandeira representa um ponto das duas variáveis em estudo. A correlação apresentada é o coeficiente de correlação de Spearman.O gráfico acima mostra que os países com uma maior número médio de faltas por jogo tendem a ter percentagens mais altas de indivíduos com a percepção de terem sido afectados por corrupção. Infelizmente, vejam-se os casos da Grécia, Portugal e Roménia. No sentido oposto, temos os Países Baixos, a Inglaterra e a Dinamarca com as médias mais baixas do número de falta por jogo e percentagens baixas de indivíduos com a percepção de terem sido afectados por corrupção. A correlação entre as duas variáveis é 0.743 que pode ser considerada forte.
Esta correlação merece 4 comentários muito breves. Primeiro, noto que correlação não é sinónimo de causalidade entre as duas variáveis em estudo. Por exemplo, a correlação pode apenas refletir a causalidade de uma terceira variável (e.g., a adoção individual de valores éticos morais) nas variáveis que analisei acima. Segundo, mesmo que a correlação reflita causalidade entre as duas varíaveis, é preciso perceber a sua direção. Por outras palavras, não sabemos se a percepção da corrupção na sociedade transpira para o futebol, ou vice-versa. Terceiro, os dados do número médio de faltas por jogo referem-se às primeiras ligas do futebol masculino. Assim, há uma discrepância de género entre os dados do futebol e os dados da corrupção que refletem as opiniões tanto de homens como mulheres. Quarto, cada liga tem a sua cultura no que respeita à forma de arbitrar o jogo. Ou seja, as várias ligas europeias têm critérios de arbitragem mais ou menos relaxadas que podem afetar o número médio de faltas por jogo.
E se fizéssemos menos faltas no futebol?
A correlação positiva que apresentei acima levou-me a pensar nas possíveis implicações no combate à corrupção para a sociedade portuguesa. Pacotes anti-corrupção são de facto uma forma de combater o problema, mas isso implica uma espécie de caça-às-bruxas por parte do Ministério Público, como temos estado a assistir em Portugal. Passamos todos a estar sob uma nuvem negra de suspeição, dando espaço a políticos exploradores ao máximo das nossas fragilidades, das nossas ignorâncias e das nossas emoções mais negativas, denunciando tudo e todos. Passamos a ser um país dividido entre denunciantes e denunciadores. É esse o país que queremos para nós, para nossos filhos e para os filhos deles?
Na minha perspectiva, a melhor forma de combater a corrupção é assumir uma maior responsabilidade individual. Uma forma simples e quiçá mais eficaz é começar por jogar futebol dentro das regras. O importante não é ganhar, mas sim ganhar eticamente. Acho que fazemos isso entre amigos. Mas acho que não fazemos o mesmo quanto jogamos contra os nossos co-cidadãos desconhecidos.
Assim, se os portugueses querem menos corrupção, proponho que, em vez de seguirem ideologias populistas, comecem por exigir aos jogadores profissionais que façam menos faltas nos jogos. Proponha também que exijam comportamentos corretos dos treinadores das equipas, dentro e fora de campo; não sou sportinguista mas admiro o comportamento exemplar de Ruben Amorim. Ganha o espectáculo, ganha o debate profundo sobre as melhores opções tácticas. Perde a debate superficial sobre se foi ou não falta, se foi ou não penálti. Perde a corrupção do jogo. Acima de tudo, perdem os populistas da nossa praça que querem impôr as suas visões de baixa resolução sobre a realidade.
Eu tenho um sonho de que os Clássicos da nossa liga profissional tenham um número médio de 20 faltas por jogo. Eu tenho um sonho de que hajam jogos com 90% de jogo jogado. Eu tenho um sonho que o futebol seja uma fonte de inspiração para a sociedade em geral. Este sonho começa hoje.
DICIONÁRIO ESTATÍSTICO
Dados Primários: dados recolhidos pelo próprio investigador e não por outros investigadores.
Gráficos de Dispersão: gráficos por ponto onde cada ponto refere-se ao par de valores das variáveis em estudo na unidade estatística deste estudo (no presente estudo, país).
Medidas de correlação: são estatísticas que pretendem capturar o sentido de relação e a sua intensidade entre duas variáveis quantitativas. Estão definidas entre -1 e -1. Um valor positivo dessas medidas significa que, quando uma das varíaveis aumenta, a outra tende também a aumentar. Por oposição, um valor negativo traduz a ideia de que, quando uma das varíaveis aumenta, a outra tende a diminuir. Um valor nulo reflecte a situação em que, quando uma das varíaveis aumenta, a outra mantem-se constante. As medidas (ou coeficientes) de correlação mais usadas são as de Pearson ou Spearman de acordo com o nome dos estatísticos que desenvolveram essas medidas.


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