Entre Pedro Almodóvar, Pós-Modernismo e Jogos Olímpicos de Paris

No outro dia acabei de ler o livro "O último sonho" do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Era um livro de contos, muitos escritos na década de 70 do século passado. Uns retratavam momentos pessoais do cineasta, enquanto outros eram variações de temas clássicos da nossa cultura. Por exemplo, um desses contos acabava com uma estranha Pietá, em que um padre chorava segurando um travesti morto no colo. Pedro Almodóvar tinha feito menção no prefácio de que tinha nascido como cineasta sob grande influência do pós-modernismo ("Como cineasta, nasço em plena explosão do pós-modernismo e as ideias surgem de qualquer lugar"). 

Não sabia muito bem o que era o pós-modernismo, uma ignorância que atribuo à minha formação académica e aos meus interesses pessoais mais virados para as matemáticas e engenharia. Fui então investigar esse tema no ciberespaço. 

Fiquei a saber que o pós-modernismo era um movimento artístico, cultural e filosófico, no qual Pedro Almodóvar era um dos maiores representantes no campo do cinema. O movimento tinha começado em meados do século passado, tendo atingido o seu apogeu nas décadas de 70 e 80. Contudo, a influência desse movimento continua a sentir-se na nossa sociedade e cultura. Mas afinal de contas, o que é o pós-modernismo?

Não parece haver consenso sobre uma definição clara, o que é uma ironia extremamente cómica em face dos seus fundamentos teóricos, tal como vão ver. Em teoria, o pós-modernismo encerra em si três correntes de pensamento: o pós-estruturalismo, a desconstrução e a condição pós-moderna. Não evito pensar que pareço alguém a brincar com uma matriosca de conceitos. Adiante. 

O pós-estruturalismo pressupõe que a identidade, os princípios ou valores éticos e a condição económica de cada pessoa interagem entre si e, portanto, não são propriedades intrínsecas que podem ser entendidas isoladamente. Por sua vez, a desconstrução não admite que exista uma única e verdadeira interpretação de um texto. Existe sim um conjunto infinito de interpretações do mesmo. A desconstrução rejeita também a nossa linguagem por estar construída em termos de binómios em que um conceito domina sobre um outro que o opõe (por exemplo, bondade contra maldade, útil contra inútil, verdadeiro contra falso). Por fim, a condição pós-moderna assenta no conceito de que a verdade é dependente do contexto social e histórico em que se insere, em vez de ser universal e absoluta. 

Estas três correntes de pensamento podem ser ilustradas com um dos poucos momentos memoráveis da cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris: Axelle Saint-Cirel, vestida de branco e empunhando uma bandeira francesa, canta maravilhosamente "A Marselhesa" no telhado do Grand Palais. Nessa cena, Axelle parece retratar "La Liberté" do quadro "La Liberté guidant le peuple" de Eugène Delacroix. A questão é: como podemos interpretar essa cena? 

Axelle Saint-Cirel a cantar "A Marselhesa" durante a cerimónia de abertura dos Jogos Olímpicos de Paris.  

Comecemos por algumas informações prévias. Para quem não viu a cerimónia de abertura, Axelle Saint-Cirel é uma mulher de tom de pele acastanhado. Nasceu na região parisiense, sendo filha de pais oriundos do arquipélago de Guadalupe, localizado nas Caraíbas e atualmente sob o jugo do governo francês. Serão estes factos relevantes para a nossa interpretação?  

Se partirmos do binómio opressor/oprimido, a representação de "La Liberté" por Axelle  pode ser interpretada como uma liberdade oprimida de um país colonizado (Guadalupe) contra o seu país colonizador (França). 

Se agora passarmos para o binómio da côr de pele (branca/não-branca), o tom acastanhado de pele de Axelle está em puro contraste com a côr de pele branca da "La Liberté" de Delacroix. Por haver duas representações de "La Liberté" tanto de pele branca como de pele não-branca, a presença de Axelle Saint-Cirel pode também transmitir a ideia de que não há domínio da côr da pele no conceito de liberdade.   

Se por fim tomarmos o ponto de vista das reparações históricas, a representação de "La Liberté" por Axelle, filha de pais colonizados, pode ser interpretada como um género de compensação histórica por parte da organização olímpica francesa ao povo guadalupe.   

Tenho a certeza que o leitor se lembrará de fazer outras interpretações para este momento da abertura dos Jogos Olímpicos. Todas estas interpretações são dependentes do nosso contexto social e histórico e, como tal, da nossa percepção do mundo em que vivemos. 

Mas porque razão estou eu a falar deste assunto no meu blogue em Estatística antes de ir de férias? Quando li a entrada da Wikipedia sobre o pós-modernismo e a rejeição de uma verdade absoluta e universal, pensei inicialmente que isso seria o início do fim da Ciência mas, depois de reflectir um pouco mais sobre os meus conhecimentos em Estatística Bayesiana, fiquei com a outra visão. É essa visão que vou partilhar convosco no próximo texto. Até lá, boas férias!

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