Segundo pilar do Ikigai: liberta-te do teu ego
If you were to learn anything, it would be to free ourselves from any beliefs or baggage or dogma that gets in the way of us acting according to our true nature.
Rick Rubin. The Creative Act: A way of Being
Antes de começar, queria dizer que a vida por estes lados anda bastante ocupada devido ao início do ano lectivo, o que levou a um abrandamento na escrita deste blogue. Mas continuem sintonizados pois prometo trazer temas escaldantes à discussão nos próximos tempos. Bem, escaldantes é uma palavra demasiado forte. Vá, interessantes para esta pequena fatia da população inclinada para a Estatística, Ciência de Dados e áreas afins.
Mesmo estando ocupado, dei por mim a escrever este texto ao sabor da leitura do livro de Rick Rubin sobre Arte e o Processo Criativo. Sabem quem é? Se não sabem, aconselho a lerem a sua entrada na Wikipedia. É um barbudão norte-americano que é uma espécie de rei dos produtores musicais, tendo trabalhado com (vejam esta lista de artistas!): Adele, Lady Gaga, Danzig, Metallica, Slayer, The Cult, Red Hot Chili Peppers, Rage Against the Machine, the Strokes, Weezer, Johnny Cash, entre outros. Fui lendo o livro lentamente, detectando o curioso facto de muitos pensamentos de Rick Rubin sobre Arte e o Processo Criativo se alinharem com os 5 pilares do Ikigai que ando a discutir neste blogue. Será que os artistas aplicam esses pilares sem os saberem?
A minha ideia é que, intuitivamente, sabemos ser benéfico libertar o nosso ego no dia-a-dia. Reduz stress e problemas de saúde, melhora a nossa qualidade de vida, o nosso relacionamento com os outros, a nossa satisfação no trabalho que executamos todos os dias.
Em contrapartida, a preservação do ego é necessária como um poderoso mecanismo de defesa contra ameaças verdadeiramente reais e de grande impacto à nossa sobrevivência imediata. É bom ter um sentimento de preservação da nossa existência que nos ajude a decidir rapidamente o que fazer quando encontramos um leão na savana africana - um episódio muito plausível para muitos de vós, queridos leitores. A preservação do ego é um mecanismo fundamental à manutenção da nossa espécie e a nossa distribuição por esse mundo fora.
Vou então discutir o conceito de libertar o ego em duas situações diametralmente opostas.
Atingir o flow como forma de libertar o ego
A libertação do ego acontece naturalmente em actividades profissionais que nos sugam para dentro delas. De certeza que já sentiram o estranho fenómeno de estarem a ler um livro que gostam, de estarem a pintar um quadro ou até mesmos paredes, de estarem a arranjar o quintal, de estarem a tocar guitarra, e de repente levantarem os olhos para o relógio do pulso - se alguém ainda o tiver nestes dias que correm - e se aperceberem que passaram duas horas sem darem conta.
Essas actividades libertárias de ego criam o chamado estado mental de flow em que o tempo e o nosso corpo físico não parecem existir. Só existe a tarefa à nossa frente. Avançamos na tarefa incessantemente com a concentração na sua capacidade ótima e nem damos conta que uma mosca passou à frente dos nossos olhos.
No meu caso, eu atinjo o flow quando estou embrenhado numa análise de dados desafiante ou na escrita de um artigo científico. Atinjo esse flow quando estas tarefas parecem cair naquele ponto de equilíbrio delicado de serem nem tão fáceis nem tão difíceis. Já os antigos diziam "nem tanto ao mar nem tanta à terra".
Quando preciso de analisar uns dados triviais do ponto de vista técnico, entro num certo estado de aborrecimento que, por vezes pode levar ao adiamento dessa tarefa. Quando tenho em mão dados extremamente complexos de analisar, posso cair no extremo oposto em que entro num estado de desmotivação por sentir-me incapaz de fazer avançar a análise.
Tento evitar estes dois extremos ao máximo na minha investigação ou nas minhas colaborações com outros investigadores. A forma como evito trabalhar nesses extremos é passar análises de dados de rotina a investigadores juniores ou passar análises de dados complexos a investigadores que sinto serem mais capazes do que eu para resolver o problema.
Desta forma, dou prioridade às atividades (profissionais) que maximizem a minha chance de entrar em flow. Considero a execução dessas tarefas muito benéfico para a minha saúde mental, pois parece que entro num estado em que a exaltação e atenção se conjugam na perfeição com uma sensação estranha de acalmia por sentir ser capaz de atingir o meu objectivo, mesmo que esse evento seja incerto.
A questão fundamental é saber em que situações profissionais temos uma maior propensão para atingir o estado de flow. Deparei-me com a resposta a esta questão ao ler um artigo de 2019 que sugere que a aprendizagem ótima de modelos estatísticos e de inteligência artificial é obtida em problemas de classificação em que o nível de precisão após aprendizagem ronda os 85%. Os autores desse artigo denominaram essa sugestão por "regra dos 85%".
Na prática, essa regra sugere o que a intuição nos diz: devemos procurar problemas científicos ou desafios profissionais em que sentimos ter uma grande proficiência para atingir os objectivos traçados, mas existindo um pequeno grau de incerteza e de desconhecimento que nos impulsiona a procurar novas soluções em alternativas às soluções existentes. A regra dos 85% é o tal ponto de equilíbrio que nos permite trabalhar num regime perto do flow.
Libertar o ego quando recebemos somos avaliados
No meu caso, a avaliação mais frequente vêm no seguimento duma submissão de um artigo para publicação numa determinada revista. Essa avaliação é feita por colegas que dedicam parte do seu precioso tempo a lerem e sugerirem correcções ao nosso trabalho. Por vezes, os comentários são tão positivos que não evitamos sorrir e respirar de alívio. Outras tantas vezes, recebemos uma rejeição taxativa do editor. Mas na grande maioria das vezes, os avaliadores apontam aspectos menos positivos do artigo, que devem ser endereçados de alguma forma, antes do artigo receber o selo de aprovação para publicação.
É nessas situações menos positivas que o nosso ego salta para fora e mostra a sua essência mais pura. Cerramos os dentes e lançamos aos quatros ventos a questão:
"Quem são estes avaliadores que não percebem nada do que estão dizer?!?"
Refilamos com tudo e com todos. O que nos faz tão mal à vesícula e a diabo a sete, como na antiga e divertida canção do Carlos Paião. Agora, imaginem se vivemos nesse estado crónico de preservação do ego.
A alternativa é adotar a postura de que a avaliação não é sobre a nossa qualidade como pessoa, mas sobre o conteúdo do artigo. Essa postura liberta-nos o ego e leva a concentrarmo-nos no que é verdadeiramente importante: o melhoramento do conteúdo do artigo para que este seja entendido corretamente pelos leitores.
Um professor da London School of Hygiene & Tropical Medicine fez-me certa vez esta pergunta que ainda retenho na memória:
"Do you want to fight the referee or publish your paper?"
Libertar o ego no contexto de avaliação é uma das tarefas mais difíceis, principalmente, quando estamos possuídos por um grande sentimento de injustiça. Contudo, devemos fazer esse esforço, tal como quando vamos ao ginásio para fortalecer os músculos. Aqui fortalecemos o músculo mental que coloca de parte as questões existenciais do ego.
Esse esforço pode ser bem recompensado se encararmos os comentários como uma oportunidade de crescer intelectualmente. Essa mudança de perspectiva leva-nos paulatinamente a aceitar de braços abertos comentários menos positivos, porque sabemos que vamos ter a oportunidade de melhorar algum aspecto como investigadores e quiçá como pessoas.
Claro está que devemos também libertar o nosso ego quando estamos a avaliar o trabalho dos outros. A ideia é fazer crescer quem é avaliado, oferecendo críticas construtivas. Oferecer críticas construtivas, subentende-se, não deve ser visto como uma espécie de passar a mão pelo pêlo. Oferecer críticas construtivas é mostrar o que se pode melhorar e sugerir caminhos possíveis. Em contraste, devemos evitar comentários com o intuito de demonstrar a nossa superioridade intelectual ou, pior ainda, de puxar os outros para baixo.
Se todos operarmos no sentido de libertação dos nossos egos, estamos a contribuir para um mundo laboral mais harmonioso e sustentável. Afinal de contas, viver em comunidade é viver em harmonia com o nosso ego e com o ego dos outros. E assim faço a ponte para o próximo texto sobre o terceiro pilar do Ikigai: harmonia e sustentabilidade. Até lá fiquem bem!
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