Mixórdias estatísticas na minha visita à Ilha da Madeira
Há duas semanas atrás visitei a nossa pérola do Atlântico na companhia da minha família (esposa e filho de quatro anos e meio). Foi a minha primeira experiência na ilha e claro está que, durante a minha estadia, o meu olho de falcão esteve a trabalhar como um radar na procura de coisas estatísticas que pudessem interessar tanto a mim como ao leitor deste blogue. Tomei notas de várias observações e experiências que agora resolvi partilhar. Restringi apenas a três notas "breves"; tento sempre que sejam breves, mas acabam semore por saírem mais longas do que tinha inicialmente previsto. Estas notas mostram bem como a minha formação académica em Estatística influencia a forma como vivo e sinto um determinado lugar.
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Pôr do sol na praia formosa (Funchal, Madeira). |
Taxistas da Bolt e as eleições (pseudo-)renhidas da Venezuela
A primeira nota poderia ter sido a aterragem no Aeroporto Cristiano Ronaldo. Após quase 5h30 de voo desde Varsóvia até à Madeira, o avião começou a descer em aproximação à pista de aterragem mas, no último momento, o piloto resolveu acelerar e subir. A explicação sobre o sucedido chegou na voz vindo do cockpit após uns minutos: ventos cruzados na zona da pista levaram ao cancelamento da primeira tentativa de aterragem. Ficou na memória aquela sensação na barriga semelhante à de uma corrida na montanha-russa. O meu filho adorou a surpresa, mas eu não fiquei assim tão agrado. A segunda tentativa de aterragem, após cerca de 20 minutos a circular no ar como uma baratinha tonta, foi um sucesso para alívio de todos. Mas não é dessa memória que quero escrever. Quero escrever sobre as minhas viagens de táxi sob a chancela da Bolt. Concentra-te, Nuno! Concentra-te!
Quando saímos do aeroporto, decidimos apanhar um táxi amarelo - uma abelhinha, como dizem os madeirenses - para nos levar ao sítio onde iríamos ficar hospedados. O taxista de forte sotaque madeirense matraqueou todo o trajecto sobre o flagelo dos TVDE no Funchal, nomeadamente, junto ao aeroporto. Segundo o taxista, todos inclusivé muitos estrangeiros tinham direito a trabalhar, mas os motoristas dos TVDE cobravam muito menos e não obedeciam às mesma regras apertadas que os taxistas convencionais estavam sujeitos. Concordei com ele num jeito cordial mas fiquei com a "pulga atrás da orelha" sobre o assunto.
Um dia mais tarde, a minha curiosidade levou-me a carregar a aplicação da Bolt que tinha no telemóvel nem sei desde quando e inferir sobre o preço da corrida entre o Funchal e a praia de areia branca do Machico. A aplicação estava muito bem construída, dando não só os preços oferecidos pela empresa, mas também os do táxi convencional e outras opções de transportes. Confesso que não sabia se estava perante uma informação falsa sobre os preços praticados pela concorrência. mas os preços pareceram suficientemente ajustados com a informação a priori derivada do custo do táxi no primeiro dia à chegada e pelo facto do Machico estar localizado mais longe do Aeroporto em relação ao Funchal.
E aqui começa verdadeiramente a minha primeira nota estatística. À ida fomos conduzidos por Ruth num bonito Tesla branco enquanto à vinda o motorista foi Carlos ao volante de um Fiat Tipo. Ao notar os seus sotaques espanhóis da América Latina, perguntei de onde eram e ambos responderam que eram venezuelanos. Nas conversas que se seguiram, confessaram que tinham vindo para a Madeira por causa da situação política e económica da Venezuela. Madeira era um pequeno paraíso terrestre para eles. Podiam mandar os filhos para a universidade e não tinham que conviver com os humores da milícia Bolivariana nas ruas de Caracas.
Dei por mim a pensar nos acasos da vida em que uns sofrem num determinada região do planeta enquanto outros vivem pacificamente sem grande percalços sociais. Pensei nas últimas eleições da Venezuela em que Nicolás Maduro arrecadou uma (suposta) vitória por uma margem mínima sobre Edmundo Gonzalez Urrutia (51.2% versus 43.18%). Tal como escrevi no meu texto sobre eleições renhidas, o equilíbrio eleitoral registado na Venezuela está associado à situação de entropia máxima, mesmo sem fazer qualquer consideração sobre a veracidade do seu resultado. Situações dessas em democracias em declínio, fracas ou puramente fícticias são como barris de pólvora prestes a arrebentar. Para já, há uma situação de paz no país, mas vi na cara desses motoristas da Bolt o desalento e a tristeza de ter de fugir da sua terra para nunca mais voltar.
Aluviões, PORTSEA e uma coincidência inesperada
A minha segunda nota estatística teve origem nessa mesma visita ao Machico e à praia da Banda-Além. Após o almoço, o tempo ficou um pouco farrusco para continuar na praia. Por esse motivo, resolvemos dar um pequeno passeio pela cidade. Foi nesse passeio que visitámos a Capela dos Milagres "edificada no local onde se realizou a primeira missa na Madeira, no dia seguinte ao descobrimento da ilha, em 1419". Fiquei a saber um pouco das catástrofes que assolaram a Capela ao reparar nas várias placas alusivas ao grande aluvião de 9 de Outubro de 1803 espalhadas pelo sítio. Segundo reza a história, o pórtico da entrada foi parcialmente destruído e a imagem de Cristo crucificado foi arrastada por esse mar fora. Por milagre divino ou não, a imagem foi recuperada três dias depois por uma embarcação americana e entregue à Sé Catedral do Funchal. Quando passeávamos no largo onde a Capela estava localizada, reparei ainda numa outra placa, agora recordando o aluvião de 3 de Novembro de 1956.
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Placa alusiva ao aluvião de 3 de Novembro de 1956 (Machico, Madeira). |
Ao ver todas estas placas, não evitei em pensar em Estatística de Valores Extremos, onde a escola portuguesa, nomeadamente o Centro de Estatística e Aplicação da Universidade de Lisboa é mundialmente reconhecido pelos seus contributos científicos. Destaco aqui os nomes de Professor José Tiago de Oliveira (1928-1992). o fundador da Escola de Extremos em Portugal (PORTSEA - do inglês Portuguese School of Extremes and Applications) e a Professora Ivette Gomes que, com todo o seu currículo extenso na área, escreveu uma breve resenha histórica sobre essa mesma escola com o apoio da Sociedade Portuguesa de Estatística, que muito felicito pela apoio na preservação da nossa memória recente sobre a História da Estatística em Portugal.
Para o leitor menos conhecedor deste assunto, a Estatística de Valores Extremos é um ramo da Estatística que se dedica à análise de dados de máximos ou mínimos e no seu desenvolvimento metodológico. É extremamente útil nas áreas das aplicações, nomeadamente, finanças (previsões de quedas bruscas da bolsa), seguradoras (previsão de reembolsos extremos), sismologia (previsões da ocorrência de sismos de alta magnitude) e climatologia (estudo de alterações climáticas em que se afirma que os eventos extremos como tempestades ou períodos de seca passaram a ser mais frequentes). É uma área altamente matematizada e de grande arcabouço teórico. Quis o acaso que nunca tivesse trabalhado com esse tipo de dados, mas gostaria de um dia aprofundar os meus conhecimentos nessa área tão querida para muitos estatísticos portugueses.
Para terminar esta nota, escrevo um dessas coincidências da vida que me deixou boquiaberto. Após a visita ao Machico, o bichinho da curiosidade levou-me a averiguar a existência de dados oficias de precipitação na Ilha da Madeira. Questionei-me se seria possível prever a ocorrência de aluvião no Machico a partir do, por exemplo, dia(s) de precipitação máxima em cada ano. Infelizmente a minha pesquisa pela internet conduziu-me a muitos dados relacionados com a precipitação média, mensal ou anual. Sendo interessantes para efeitos de planeamento de viagens à Ilha, esses dados não serviam para o meu propósito.
Já estava quase a desistir da minha pesquisa quando descobri uma sugestão do motor de buscas onde se lia: "Avaliação da Precipitação Extrema na Ilha da Madeira". Parecia que tinha encontrado o que queria. Segui o ligação que me levou ao descarregamento de um ficheiro pdf. Era um documento com o selo do Instituto Superior Técnico, selo esse que foi como um tatuagem invisível durante os meus tempos de estudante de Licenciatura e Mestrado. A capa informava que o documento era uma dissertação de mestrado em Engenharia do Ambiente. O orientador do trabalho era o Prof. Amilcar Soares, o saudoso e sempre simpático professor do Departamento de Engenharia de Minas e Georecursos que me transmitiu os seus conhecimentos em Geostatística na cadeira com o mesmo nome. O nome da candidata era:
Sílvia Maria Ferreira Sepúlveda.
O meu queixo caiu, começando depois a rir às bandeiras despregadas (atualmente poderia dizer que LOLifiquei). Faço notar que, se não é óbvio para todos, o meu apelido é algo raro em Portugal. Sepúlveda é de facto um apelido de origem espanhola e muito mais disseminado pela América Latina - quem não conhece o Luís Sepúlveda? Fiquei extremamente contente que uma outra Sepúlveda de um ramo genealógico diferente do meu se dedicasse a assuntos estatísticos. Sou velho, mas não tão velho assim, para relembrar esta deixa do Fernando Pessa (1902-2002) que adorava em miúdo ouvir dizer no fim dos seus programas da RTP: "E esta, hein?!?"
Um desafio estatístico no Jardim Tropical Monte Palace
A minha terceira nota teve origem na visita ao Jardim Tropical Monte Palace realizada uns dias após ao passeio ao Machico. Partimos de teleférico localizado na zona histórica do Funchal até chegarmos ao topo do Monte. Foi divertido sentirmos por 15 minutos que somos como uma espécie de águia pairando sobre os telhados das casas, sobre as pessoas na sua azáfama diária sem nos notarem e sobre os carros ziguezagueando as ruas da cidade para um destino totalmente desconhecido para nós. O que contrastava com quem nos vissem na cabine flutuando no ar . Essas pessoas sabiam exatamente para onde iríamos.
Não quero que este texto se torne uma curta crónica de viagem à Madeira e por isso vamos ao que interessa. Entrámos no deslumbrante jardim - que me fez lembrar os parques naturais de Sintra - e desde logo reparei num detalhe nas árvores e arbustos por onde passava. Tinham um autocolante onde se podia ler um número. Pensei imediatamente que esse número poderia corresponder a um identificador num inventário ou catálogo do jardim. Comecei a imaginar uma espécie de base de dados que os curadores do jardim deviam ter no seu computador. Nessa base de dados teríamos a informação estatística de cada árvore (ou arbusto) presente no jardim: identificador, espécie, subespécie, localização no jardim, origem geográfica, idade, ano de plantação, etc. Como os identificadores eram números inteiros, fiz a suposição de que poderiam referir-se à ordem com que a informação de cada item catalogado tivesse entrado na respectiva base de dados. Assim, pensei que tal número poderia dar a informação de quantos items estariam catalogados no jardim. Lancei então um desafio a mim mesmo: estimar o número total de itens catalogados e a sua densidade no jardim. A solução para o desafio estatística era simples: encontrar o item com o identificador máximo durante a visita.
Se tivesse todo o tempo do mundo, conseguiria percorrer todo o jardim e encontrar esse item. Contudo, o mundo real é bastante diferente do mundo teórico que habita a cabeça de um estatístico como eu. Estava com o meu filho de 4 anos e meio e por isso, não tinha qualquer esperança de calcorrear todo o jardim com um criança a dizer-me: "Pai, quando é que vamos para praia?". Assim, por motivos familiares, decidi efectuar uma amostragem do jardim gerada pelo caminho pseudo-aleatório que o meu filho tomaria durante a visita e contentar-me com a procura do item com identificador máximo dentro dessa amostragem. Não era a solução perfeita mas era uma boa solução e, acima de tudo, realista devidos aos constrangimentos que tinha pela frente.
Fui percorrendo o jardim, ziguezagueando pelos belos caminhos verdejantes de diferentes geografias. Para não perder o fim à meada, pegava no telemóvel e tirava de tempos a tempos fotografias às arvores e os seus identificadores. Passado duas horas de passeio pelo jardim, que incluiu uma paragem no lago central onde pudemos escutar um pouco de fado (sem sotaque madeirense) e uma pausa para o almoço durante o qual devorámos uns quantos pastéis de bacalhaus, dei por terminada a amostragem que tinha imposto a mim mesmo. O identificador mais elevado que encontrei foi o número 8873. Foi essa então a minha estimativa do número total de items catalogados no jardim.
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Árvore com o identificador máximo no Jardim Tropical Monte Palace (Funchal, Madeira). |
Para terminar o desafio estatístico, tinha ainda de recolher um dado secundário (1) sobre a área total do jardim. Fui então à pagina oficial do jardim na internet e fiquei a saber que a sua área era de cerca de 70,000 metros quadrados. O quociente entre o número total estimado de items catalogados pela área total do jardim deu origem à estimativa de 0.13 itens catalogados por metro quadrado. Não sei se falhei por muito, mas a lição que tirei deste desafio foi que podemos encontrar brincadeiras estatísticas com que nos podemos entreter em sítios tão inesperados com a visita ao um jardim tropical.
Estou muito curioso em saber se os leitores deste blogue também se deram a fazer estas chalupices estatísticas durante as suas viagens. Afinal de contas, quem é estatístico não evita levar a Estatística a passear e como tal, não evita ver o mundo como uma brincadeira estatística imensa.
E assim dou por terminada esta mixórdia estatística sobre a minha visita à Ilha da Madeira. Ainda não decidi qual o tópico que vou tratar no próximo texto. Por isso, proponho ao leitor deste blogue que fique atento às próximas semanas para mais umas chalupices minhas sobre a Estatística. Até lá, fiquem bem!
Nota de rodapé:
(1) Em geral, dados podem ser considerado primários, sendo recolhidos pelo próprio investigador, ou secundários, tendo sido recolhidos anteriormente por fontes externas ao estudo científico.
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