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Perguntar sem incomodar para alimentar modelos "exactos" do cidadão de carne e osso

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Tinha feito a promessa ao leitor e a mim mesmo que discutiria o impacto da aprendizagem automática no funcionamento da Democracia, usando como desculpa alguns frases do livro " A Revolução do Algoritmo Mestre" do Prof. Pedro Domingos. Tendo o livro sido escrito originalmente há quase uma década atrás, o Prof. Pedro era - pelo menos nessa altura, agora não faço ideia - um optimista de que a Democracia iria funcionar melhor.   Neste texto resolvi trazer à discussão a seguinte frase do livro (pág. 43): No futuro, desde que os modelos de eleitores sejam exatos, os representantes eleitos poderão perguntar mil vezes por dia aos eleitores o que estes querem e agir em conformidade - sem ter de importunar os verdadeiros cidadãos de carne e osso.   Esta frase transmite duas ideias que considero um pouco contenciosas. Que é possível criar modelos "exactos" de nós os eleitores através de muitos dados. E que esses mesmos dados podem ser colectados sem incomodar os cidadãos...

Estatística Bayesiana num mundo pós-modernista

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No meu último texto escrevi sobre o pós-modernismo e a sua rejeição da crença de que existe uma verdade universal e absoluta. Hoje vou explorar um pouco mais este tema à luz do que sei dos fundamentos de Inferência Estatística.  Em geral, o pós-modernismo argumenta que a verdade está sempre dependente do contexto social e histórico no qual está inserida. Como a realidade é intrinsecamente dinâmica, a verdade é essencialmente fugaz: o que é verdade hoje deixa de o ser amanhã. Na prática, o pós-modernismo apela à subjectividade do pensamento e nega a existência de uma realidade objectiva que possa ser descoberta por métodos científicos. Refuta, também a validade (moral) das grandes narrativas religiosas, uma vez que estas foram redigidas em contextos históricos e sociais muito distantes dos nossos.  Confesso que fiquei apreensivo quando me debrucei sobre este movimento filosófico. Pareceu-me que o pós-modernismo era um género de uma bala disparada contra a própria Univers...

Entre Pedro Almodóvar, Pós-Modernismo e Jogos Olímpicos de Paris

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No outro dia acabei de ler o livro " O último sonho " do cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Era um livro de contos, muitos escritos na década de 70 do século passado. Uns retratavam momentos pessoais do cineasta, enquanto outros eram variações de temas clássicos da nossa cultura. Por exemplo, um desses contos acabava com uma estranha Pietá, em que um padre chorava segurando um travesti morto no colo. Pedro Almodóvar tinha feito menção no prefácio de que tinha nascido como cineasta sob grande influência do pós-modernismo ("Como cineasta, nasço em plena explosão do pós-modernismo e as ideias surgem de qualquer lugar").  Não sabia muito bem o que era o pós-modernismo, uma ignorância que atribuo à minha formação académica e aos meus interesses pessoais mais virados para as matemáticas e engenharia. Fui então investigar esse tema no ciberespaço.  Fiquei a saber que o pós-modernismo era um movimento artístico, cultural e filosófico, no qual Pedro Almodóvar era um dos ma...

Os partidos portugueses e as suas interações nas redes sociais: o que dizem as estatísticas para além do óbvio?

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No dia 5 de Março deste ano, antes das eleições legislativas, a CNN Portugal e a  CMTV  informavam os cibernautas de que o Chega era o partido português com mais seguidores e interacções nas redes sociais. Essas duas notícias, literalmente idênticas, estavam baseadas num relatório de título “ Radar das Legislativas: Os partidos políticos e os seus líderes na esfera pública digital ” produzido pela LabCom - Comunicação e Artes da Universidade da Beira Interior. Dei uma olhadela ao relatório e constatei que o mesmo continha vários dados estatísticos interessantes, nomeadamente, o número de publicações, o de visualizações e o de interações (partilhas, gostos e comentários) durante o período de 9 de Novembro de 2023 a 19 de Fevereiro de 2024. Havia também a estatística fundamental do número de seguidores de cada partido no final desse período. Os partidos em análise foram os seguintes:  Bloco de Esquerda (BE) Centro Democrático Social/Partido Popular (CDS-PP) Chega (CH) ...

E se fizéssemos menos faltas no futebol?

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No passado dia 14 de Junho, começou o Campeonato Europeu de Futebol de 2024 com a vitória da Alemanha contra a Escócia por 4-1. Desde esse dia, a minha rotina diária alterou-se por completo de forma a poder seguir os jogos e inteirar-me de todas as notícias fresquinhas, relevantes ou irrelevantes, da nossa Selecção. É de facto muito importante e decisivo para a vida do autor deste blogue saber se o Cristiano Ronaldo anda a tomar as suas vitaminas anti-envelhecimento, ou se João Félix se anda a alimentar bem, parece-me um pouco murcho, esse rapaz.    Será que vamos repetir o feito de 2016? Não sei prever isso, mas posso constatar que já não temos o nosso herói Éder, o homem das bifanas, para nos salvar contra os irredutíveis gauleses que, até ao momento, parecem mais preocupados com Macron, Le Pen e outros cavaleiros do Apocalipse Político francês do que jogar um futebol romântico ou impressonista ao estilo de Manet e Monet que nos apaixone e arrebate. Vamos ver como tudo term...

E se as eleições passarem a ser mais equilibradas?

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O tema que vos trago hoje vai muito além da minha formação académica e investigação científica . Confesso que me dá algum prazer tentar escrever sobre um tópico que não domino bem. É uma boa forma de partir numa expedição a outros "mundos" para além da Estatística. É também uma boa forma de dizer a mim próprio: "és ignorante e, por isso, faz-te à vida e não deixes que os outros pensem por ti".  Tudo começou com uma visita à FNAC de Alfragide em Fevereiro deste ano. Ao passear pela loja, parei junto a um escaparate no corredor central, onde encontrei o livro " A Revolução Do Algoritmo Mestre " do Pedro Domingos, Professor da Universidade de Washington (E.U.A.). Lembrei-me imediatamente da  conversa  animada que o Professor teve com o José Maria Pimentel, o anfitrião do " 45 graus ", um podcast que oiço com alguma regularidade. Essa conversa deambulou entre os sucessos da Inteligência Artificial, as suas 5 "tribos", e a procura de um alg...

Será que temos estatística num vídeo TikTok sobre homens contra ursos?

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Inicio este blogue com um comentário ao artigo de opinião intitulado “ O urso no meio da sala ” da colunista Luísa Semedo, artigo esse publicado no sítio do PÚBLICO no passado dia 2 de Maio. A autora é claramente conhecedora da expressão inglesa “ The elephant in the room ”, que significa um problema evidente mas que é evitado de ser falado ou discutido abertamente.  Tendo vivido em Terras de Sua Majestade por quase uma década, fiquei curioso por saber o contexto do artigo e perceber a razão da autora não ter escolhido o título “O elefante no meio da sala”, sendo este uma tradução mais perto do original. Debrucei-me então sobre o artigo.  Senti imediatamente um vórtice a sugar-me para um mundo fantástico que desconhecia. Não o País das Maravilhas da Alice onde tomar um comprimido vermelho ou azul permite aumentar ou diminuir dimensões corporais. Não a Terra do Nunca onde ser criança para sempre é uma possibilidade (mas não desejável). Não o mundo escondido das Crónicas de Nár...